Sessão 1 – Santa Teresa

Diário de Bordo – A viagem de um para um

Georgiana Góes

Casa de Raquel André, uma performer portuguesa que cedeu seu quarto para a intimidade que pede a cena de um para um.  Meio nervosa por fazer a cena novamente durante muitas horas, quis descansar muito, ficar em casa o máximo de tempo quieta pois sabia que iria falar das 16:30 às 22h quase ininterruptamente. Cheguei meio em cima da hora começaríamos em menos de uma hora. Reconheci o espaço, arrumei meu pequeno set de duas cadeiras vermelhas acomodadas uma de frente para a outra, uma pequena mesinha vermelha de um lado de uma das cadeiras e o vaso de gérberas vermelhas, amarelas e laranjas do outro. Uma taça, um bilhete, um email, um isqueiro, uma pulseira e um vestido de camisas brancas de homem. Esses também foram os elementos que me acompanharam na primeira viagem de um para um, no Festival Home Theatre em março de 2013, ao apartamento em Laranjeiras. Quando viajei para São Paulo para Vila Maria Zélia em outubro de 2013 para o início das conversas com Janaína Leite, onde experimentei fazer para ela com os outros parceiros do núcleo de pesquisas assistindo, só levei o vestido os pequenos objetos e alguns poucos girassóis. Quando retornei à São Paulo em janeiro de 2014 e fiz no apartamento de um casal de amigos e na Vila Maria Zélia para a mostra do núcleo onde tive a oportunidade de pela primeira vez experimentar como seria fazer 3 vezes os meus 20 minutos para um público crescente ( primeiro para 3, depois para 5, depois para 7),  também só levei comigo o vestido, os pequenos objetos e muitas gérberas. No caminho dali, a sensação, dentro do metrô, era de liberdade máxima, com uma bolsa grande de um lado e um buquê enorme do outro. Dentro a leveza e realização de ter um pequeno espetáculo que eu poderia fazer pra qualquer pessoa, em qualquer lugar. Só precisaria de uma única pessoa para me ouvir e duas cadeiras para nos sentarmos! Uma voz interna pulava de braços pra cima: “você conseguiu o que sempre desejou desde quando assistiu Denise Stoklos e seu teatro essencial! Um ator, um espectador e uma história!” Ufa! Nada de cenários, luz, peso, excesso de peso,  quantos somos? Todos chegaram? Todos com documentos? Como um palhaço que sai de casa com sua mala e tudo ali é seu universo, assim eu me sentia, “me sentindo” no metrô com a bolsa grande e as flores.

Em agosto de 2014 voltei a viajar, agora estava indo à Buenos Aires finalizar as filmagens de um longa de co-produção Brasil e Argentina e aproveitei para levar meus 20 minutos pra meu amigo ator e diretor argentino Mario Vedoya, para que pudéssemos trabalhar um pouco. Em uma pequena mala lá estava meu vestido e os pequenos objetos agora em vôo internacional! Fiz para ele no quarto do hotel em que eu me hospedei em Villa Crespo. No dia seguinte, apresentei para minha amiga e atriz Estrela Straus em seu pequenino apartamento também em Villa Crespo. Do hotel para sua casa, somente algumas quadras de caminhada cortada por um vento gélido, levando uma outra bolsa grande, os pequenos objetos e ao invés de flores, uma maça!  Essa pequena viagem internacional foi de grande importância pra que eu me reaproximasse da cena, da história, do processo, do projeto que já começaria duas semanas depois com essa apresentação em Santa Teresa. A sensação depois de fazer pra Mario foi de que eu estava a léguas de distância daquelas palavras, daquelas imagens, do sentido que me levou à escrever esse texto. Mas eu já não tinha mais essa urgência, a vida continuou, as feridas cicatrizaram, o tempo atropelou, optei por me distanciar. Um novo ciclo começou e agora eu tinha que achar novos apoios, novas referências pra que as palavras e ações não ficassem frias e distantes como ficaram pra Mario naquele quarto de hotel. No apartamento de Estrela, já havia outro calor, já estava com mais prazer fazendo, relembrando pequenas ações e grandes detalhes. Ela foi tocada, ficou mexida com a cena, com a história, com o percurso de transformar a dor em cena, com a transformação de seu pequeno quarto de vestir em suspensão de espaço e num lapso de tempo, em um palco íntimo.  Mas segui para São Paulo ainda com a sensação de distanciamento do material e um pouco preocupada e desestimulada em revisitar minha história pessoal. Além da bagagem com as roupas de frio,  outra mala menor levava meu pequeno solo.

Em São Paulo no primeiro encontro com a Janaína, já dentro do projeto, falamos sobre a dificuldade de repetir o texto criado a partir da nossa experiência pessoal, mesmo quando ele já não faz mais sentido. Ela me contou de seu percurso com a peça “Festa de Separação” que apresentou durante 3 anos após sua separação. Na peça eram seu ex marido e ela em cena e só deixaram de fazer quando Janaína já estava grávida de seu filho, hoje com 2 anos, de seu atual marido. Falamos da necessidade de criarmos novos pontos de apoio para que não se visite todas as noites a dor da separação, as imagens do período vivido.  Que referências são essas que podem ser buscadas na elaboração do material e não mais na vida? Quais são as forças que estão em jogo nesses 20 min de solo? A separação? O amor não correspondido? O ritual? Quais são os caminhos que podemme ajudar nesse percurso de desenvolvimento de texto e cena? O que pode ser fixo e o que pode mudar de acordo com o público?

Conversamos sobre a possibilidade dos objetos serem guias, das pessoas levarem objetos que foram referências nas suas histórias amorosas. Da relação ainda um pouco sem elo com Ofélia apesar da presença de alguns elementos da história dela e da minha história com ela. Já que o vestido que uso nas apresentações foi da montagem de 2009 de Hamlet, com Wagner Moura no papel título e direção de Aderbal Freire Filho, na qual interpretei a rejeitada namorada do príncipe da Dinamarca. Falamos do que pode ser criado como pano de fundo para esses 10 encontros com o público. Do que ainda me move nesse percurso e no amor? No que me move no encontro com essas pessoas? E quais as relações que eu, Georgiana, vou achando nesse processo que irão me motivar a escrever, a criar a cena.

Voltei pra casa com a cabeça fervilhando com as possibilidades infinitas, com excitação e medo com o desafio solitário de lidar tanto com essas estruturas internas, que tem a ver com as opções de linha dramatúrgica, construção da cena e novas referências. Até quando, quanto e até que ponto eu ainda vou querer trazer para à cena, essa história amorosa que vivi na vida real e que com seu término pouco comum me estimulou a criar esse solo? Porque a vida passou, meu momento é outro, o dele também, mas é inevitável reconhecer que fatos que realmente aconteceram são de uma riqueza dramática, tanto no ponto de vista do gênero, quanto do estilo drama, que valem a pena serem contados. Afinal, imediatamente após a nossa viagem, ele engravidou “por acidente” uma moça com quem ele estava saindo. O filho já tem um ano, eles foram morar juntos e há pouco fizeram uma festa de casamento…

No dia seguinte, ainda em São Paulo, encontrei com Janaína novamente, que convidou seu diretor Luiz Fernando Marques para assistir aos meus 20 minutos e conversarmos sobre o desdobramento do solo. Lá fui eu novamente com uma bolsa grande, com o vestido e os pequenos objetos de um lado, e uma flor colhida no jardim do seu prédio no Centro, do outro.

Lá, novas interrogações sobre o processo e ótimas pistas, chaves, sugestões. Ele questiona quem é o público, que situação criada é essa? Qual é o percurso teatral? Como esses objetos podem ser portas para outras histórias de outras pessoas? Pensamos que a viagem pode ser um norte, que o outro pode ser um parceiro de viagem. Que toda relação é uma viagem a dois. E eu me identifiquei com essa imagem e com a frase “Cada vez mais Cuba não existe”. Como se nesse lugar que vai deixando de existir assim como a memória, tudo pode acontecer ou tudo pode ter acontecido, ou seria imaginado? Gosto dessa ambiguidade!

De volta pro Rio, o processo começa! Reuniões, ensaio para a equipe e uma intuição de que serei muito sozinha nessa criação. Meu diretor não apareceu ainda. Não me assiste desde março de 2013. Conversamos um pouco nesse tempo para elaborarmos a equipe e detalhes do projeto, mas me sinto um pouco insegura sem a presença dele. Sorte a minha que nos últimos 13 anos fui treinada num grupo de teatro de atores sem um diretor. Me fez crescer mais forte, mas sempre contei com o olhar dos meus parceiros de longa data. Agora estou só e tenho a necessidade do olhar do diretor que começou comigo essa empreitada. Mas se ele não vier? Será que vou ter que recorrer aos olhares de novos e antigos parceiros?

Voltemos a Santa Teresa. Faltam poucos minutos para o primeiro convidado chegar. Sou apresentada a Romário que fará o registro e elaboração do blog que compartilhará com o público toda nossa aventura. Firmeza e confiança no primeiro olhar. Fazendo o penteado em frente ao espelho, chega António, o rapaz português de sorriso doce que acompanhará o processo como testemunha e colaborará com o seu olhar, analisando o desenvolvimento da cena e da dramaturgia.

Estou pronta. Coloco todos em roda como sempre faço com meus parceiros de cena antes de entrarmos. Agora estarei só em cena, mas me sinto muito bem acolhida por esses novos companheiros de viagem. Bruno Levinson, amigo antigo e meu primeiro dramaturgo há 22 anos. Ele fará as entrevistas com o público e a partir do material dos depoimentos, criaremos novos textos em parceria. As moças “profissas” da equipe de produção Paulinha Loffler e Pati Naegele sob o comando da super heróica Marta Vieira, António e Romário. Agora estamos todos no mesmo barco. Só faltou meu diretor… Agradeço a dedicação e disponibilidade de todos, peço a benção dos deuses e como dizem os brincantes antes dos folguedos para dar início às brincadeiras, “vamos guarnicê”!

Apresentei durante 6 horas com apenas 30 minutos de pausa. Para 5 mulheres e 5 homens. Curiosamente acho que o placar intuição x paranoia empatou. Normalmente os homens falam paranóia e as mulheres intuição. Mas aqui as mulheres falaram paranoia várias vezes e alguns homens optaram por intuição. Gostei. Depois reparei que eu podia induzir um pouco a resposta de acordo com a minha intenção. Nessa parte, achei novos gestos e coloquei um caco “e outras pistas” que absorvi ao texto nas outras sessões. Bom aproveitamento da repetição! Percebi que alguns textos poderiam ser falados novamente ou com outro ritmo. Boa a sensação da materialidade do texto, das ferramentas técnicas ao meu favor, como me preencho desses elementos, como eles viram novas referências e apoios e por conta disso, como me descolo mais ainda da minha história pessoal, da minha memória.

Meu diretor apareceu e assistiu uma sessão como voyer pelas costas de uma espectadora que não o via. Conversamos bem pouco, pois na pausa eu precisava descansar um pouco as cordas vocais para as outras 3 horas de cena que ainda viriam. Gostei dele ter ido, queria ele mais perto. A gente flui muito bem trabalhando, quando conseguimos nos encontrar.

Me tocou bastante o olhar doce de uma moça que parecia concordar com todos os meus pontos de vista, assim como me tocou a reação de um rapaz que não parava de chorar. Depois soube que haviam sido namorados e que a identificação com a minha história foi inevitável. Ele saiu de lá querendo voltar pra ela e me abraçou no final.  Eu só conhecia duas pessoas dessas 10, o que foi bom, pois me colocava em outra camada em relação a minha história também. Uma delas é uma prima que se separou recentemente e que se emocionou muitas vezes durante a cena e me fez chorar também. Gostei dela ter ido, pois esse foi meu pequeno gesto de dizer pra ela que a dor passa, que a gente cresce, fortalece, que esse foi o meu jeito de transformar esse amor e que o senhor tempo é nosso maior aliado. O outro conhecido foi meu novo namorado. Eu estava tão receosa com a reação dele que já havia preparado bastante o terreno. Ele se emocionou muito, ficou mexido de um jeito lindo, orgulhoso, delicado. E me levou flores! Girassóis, que são as flores que escolhi e presenteei o público nas primeiras apresentações do solo no Home Theatre! Sincronia. Meu coração sorriu e dançou.

Aguardo agora o texto do Bruno a partir do depoimento desses primeiros 10, tentando acalmar a ansiedade do coração que não para de pular!

Avante companheiros!

Logomarcas

Anúncios