Sessão 2 – Horto

Diário de Bordo

“Como um bom barco no mar, eu vou, eu vou…” http://www.youtube.com/watch?v=yjyEMSz3vs8

Estou com essa música do Otto na cabeça. Adoro e tive o prazer de participar desse clip chic com fotografia de Gustavo Adbba e direção de Natara Ney. Ela diz: “Na vida tudo pode acontecer, partir e nunca mais voltar”…

Nosso barco segue navegando e agora chegamos ao Horto na casa de minha antiga amiga, Camila Pitanga, que gentilmente abriu sua casa para as 8 apresentações do dia. Com os braços abertos e toda generosidade que lhe é peculiar, Camila me dá toda liberdade pra arrumar a casa como for mais conveniente para a cena. Aconchego de amiga que é meio família, carinho em forma de almoçinho caseiro preparado pela amorosa Ana. Indispensável mimo, pois não daria tempo de sair para almoçar no espaço que organizamos para a pausa entre as 4 da manhã e os 4 da tarde. Arrumamos o escritório que um dia foi de seu ex marido, gosto da idéia de ocupar um espaço que está desocupado e que foi o canto de trabalho de alguém importante pra ela, pra casa e pra mim, já que ele é muito meu amigo. Um quadro com uma série de fotinhos 3×4 deles ficou deitada num canto da estante e foi bom estar com eles durante o dia, pois hoje eu apresentei para 8 casais, que se separaram e voltaram ou que estão juntos há um tempo. O escritório foi adequado para a cena, tiramos um quadro gigantesco do Vik Muniz com o rosto da Camila estampado em confetes, arrumamos os outros quadros mais neutros na estante, tiramos os de muita cor, peguei duas cadeiras tranparentes para os casais de sentarem e dispus novamente minha cadeira vermelha com o móvelzinho vermelho de um lado e o vaso azul com gérberas no outro. O espaço estava menor e mais apertado. Eu fiquei virada de frente para a porta de vidro, que fazia com que a luz natural entrasse e possibilitasse também ao Romário fazer o registro de imagens

Pela primeira vez apresentei um texto novo, que veio a partir das impressões do Bruno, sobre os depoimentos dos que me assistiram semana passada. Foi delicado esse segundo passo. Ele me enviou o texto domingo à noite. Só segunda à noite comecei a mexê-lo. O Faustini provocou o Bruno para que ele também se expusesse, para que ele também colocasse na roda histórias amorosas dele. Assim ele fez e veio um texto gigante para mim. Fiquei meio desesperada de ter que decorar 5 páginas de texto até quinta. Fiquei um sem saber o que fazer pois nem tudo me tocava no texto, apesar do alívio enorme de perceber que nossa escrita dialoga. Só isso já nos coloca várias voltas na frente desse jogo hercúleo que nos propusemos a jogar. Fui editando o texto de forma objetiva com o único critério de ficar com o que mais me

tocava. Objetividade acho que vai ser um dos grandes aprendizados desse processo criativo. Como o tempo corre a toque de caixa, não caberá o que não for certeiro para a cena. O que é bom porque faz com que a gente vá direto ao ponto sem muito tempo para apegos e negociações, mas que também pode fazer com que a gente atropele determinados pontos e tenha que voltar mais adiante. Ou abandonar. Falei isso com Bruno que imediatamente disse: “Vamos nessa sem apego”. Objetividade e desapego. Seguimos.

Nos dias seguintes, retrabalhamos o texto. Ensaiamos somente um dia, para meu desespero, e definimos que, por enquanto, assumiríamos que o texto novo seria como uma segunda parte e não tentaríamos ainda mesclar com os primeiros 20 minutos. Esse novo texto já veio como o início da voz masculina. Como se “ele” começasse a surgir aos poucos falando dele, não querendo falar no assunto “deles”, pensando sobre as relações e contando outros causos amorosos.No ensaio optamos por colocar o homem do casal para o qual me apresentei, lendo para sua parceira as parte do texto com a voz masculina. Em alguns momentos eu me sentava ao lado da mulher e em outros me colocava atrás do homem, que a meu pedido, se deslocava de sua cadeira para onde antes eu me sentava. Ok, acho que havíamos resolvido esse segundo passo, tanto no que diz respeito ao texto quanto à cena. Tomei consciência que vai ser difícil decorar de uma semana pra outra e que nesse período de apresentações para o público específico (pessoas separadas recentemente, casais, poliamor, casais recentes, casais casados há muitos anos e estudiosos do genero masculino e feminino), a cena terá um caracter mais de processo mesmo, de experimento. O que para mim é um pouco incômodo pois idealmente eu gostaria de já apresentar passos mais firmes, cenas já mais definidas, decoradas. Bruno e Faustini sempre me acalmam de que o projeto é justamente o processo. Eu na minha exigência, fico sempre querendo mais. Normal também esse desconforto, porque afinal estou só no fogo, em cena.

Foi bem diferente fazer para dois. Intuo que todas as apresentações depois das realizadas para um espectador serão mais parecidas entre si. A relação de um para um em cena é muito específica, é muito forte a troca. Mas para dois e, sendo um casal, o pacto que se forma é bem potente também. Pois entro um pouco na intimidade deles. Na relação um para um, a sensação é de que o outro entra mais na minha intimidade e que apesar da proximidade, de observar e ser observada, o pacto estabelecido é de que eu falo, o outro escuta, dividimos alguns pensamentos, e só nós dois sabemos o que aconteceu ali. De um para dois, principalmente quando se conhecem profundamente, o pacto muda. Eu vejo a reação deles, que sentados lado a lado não se vêem. Vejo os pensamentos que escapam pelas expressões faciais e que revelam um pouco aquela relação, o pacto deles, alguma questão que é ou está frágil entre eles.Vejo que às vezes um segura o riso para não se expor, que o outro está tentando segurar o choro para o companheiro, mas não

tanto para mim. E como agora ficou diferente fazer para quem me conhece e para quem não me conhece e nem sabe se isso tudo aconteceu ou não. Os que me conhecem tem uma compaixão diferente e um olhar orgulhoso da transformação, mas se surpreendem menos. Os que não me conhecem, na maioria das vezes, embarcam mais na história, ficam mais tocados. Acho que quando criei e apresentei a cena há um ano e meio e eu estava ainda mais próxima dos acontecimentos e da dor, essa diferença entre os que me conheciam, ou não, era menor. Acho que porque tudo estava mais latente e havia uma surpresa dos que me conheciam, de eu ter tido a coragem de me expor daquele jeito. Ainda sinto a dificuldade de resgatar a temperatura dos sentimentos vividos para transpô-los para a cena. Ainda não achei novos apoios em todas as partes. Não fico querendo trazer a tona uma dor que vivi e não vivo mais, e ainda não consigo ter um distanciamento “profissional”, como se fosse uma atriz falando qualquer texto. A proposta de repetição imediata por dia dificulta por um lado, encontrar nesses sentimentos para serem contados sempre como se fosse a primeira vez. E por outro, me dá a oportunidade de investigar a cada vez novas formas, intenções e referências. Vi que falar alguns trechos para a mulher era mais forte do que para o homem, mas, às vezes invertia para ver se o efeito era outro. Sutilezas, às vezes mudava, às vezes não.

Na busca por novas referências, vivi uma situação muito curiosa nessa seara de investigar os limites de ficção e realidade. Eu havia lido na noite anterior os novos episódios da série “Questão de família”, que participei da primeira temporada, e que agora em outubro começo a filmar a segunda temporada. Minha personagem é a ex mulher e mãe das filhas do protagonista vivido por Eduardo Moscovis. Por coincidência, alguns textos falados por ela ou por ele, são muito parecidos com textos que surgiram nessa segunda parte do processo do solo. Eduardo foi me assistir com sua esposa na casa da Camila. E muitos dos textos que falei durante toda a cena, que agora já tem 35 minutos, poderiam ser ditos por minha personagem Renata, para o personagem do Du, Pedro Fernandes. Bela oportunidade de engendrar uma personagem na outra! Muitas camadas de ficção. Ou realidade?

Percebi também a diferença entre quando os casais que me conhecem, ou não, estavam abertos e disponíveis para aquela escuta, e quando, por algum motivo, que não consigo identificar, estavam mais protegidos, fechados.De qualquer forma tenho lembranças ternas de quando o casal, no momento de fechar os olhos, se tocava e buscava as mãos, ou um só deles apoiava a cabeça procurando aconchego. Quando uma moça chorou tanto que tive que oferecer minha água para ela e seu parceiro que parecia imparcial, no momento de ler ficou tão nervoso que suou sem parar. Um chorou em lágrimas o outro em suor. Feminino e masculino. A mulher que quando eu fiz a pergunta “intuição ou paranóia?” e imediatamente respondeu “um pouco dos dois”.

Quando perguntei à ele, ele disse: “espera, to pensando”. Ela irritada metralhou:“ele pensa muito!”. Ali vazou por uma fresta uma intimidade deles que quase preferia não ter visto.O riso cúmplice de meu amigo, que sabe de coisas que só ele sabe e por isso ria em momentos que ninguém nunca riu e como isso quase me desconcentrou. Novamente o limite muito tênue da ficção e da realidade.

Acabei de receber o email do Bruno com o texto novo do terceiro passo. Nossa próxima parada será na Lapa para pessoas que vivem relações “fora dos padrões”. O que será que será?

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