Sessão 3 – Lapa

Diário de Bordo

Georgiana Góes

“Repetir, repetir até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo”
Manoel de Barros

Ancoramos na sobreloja de um prédio comercial na Lapa, onde acontecem atividades da Agência Redes para a Juventude, projeto incrível do meu parceiro nessa jornada, Marcus Vinícius Faustini. Depois vale dar uma “goolgada” pra saber mais do que se trata. Pra mim, revolução são esses pequenos e grandes gestos que transformam primeiro os mundos internos. Este é um desses!

Foi o lugar mais difícil que já visitei com este solo porque não tem a atmosfera de identidade e intimidade que encontrei nas casas e nos outros lugares que passei, mas, por outro lado, por ser um lugar neutro, tudo ali pode ser criado. Além do que, de agora em diante, os espaços deixarão cada vez mais de ser íntimos. Foi, portanto, uma boa prévia do que vem por aí. O espaço é como um estúdio de fotografia com fundo infinito, uma área de trabalho com computadores de um lado, um espaço para reunião do outro, uma porta que dá para um banheiro e janelas por toda a parede lateral que deixava a luz de fora entrar. Montamos nosso set no piso branco de fundo infinito.

A semana foi determinante para definirmos novos rumos de nossa viagem. Meu parceiro e até então capitão do barco, Faustini, está muito atarefado com as eleições e outros trabalhos e eu, ainda inexperiente viajante solitária, estava sentindo necessidade de um olhar mais próximo, de mais encontros criativos, de mais troca e orientação. Conversamos e resolvemos amorosamente assumir que ele ficará somente como supervisor artístico. É como se ele passasse de capitão do barco para um comando em terra. Ele virá nos visitar, manteremos contato por rádio, email, rede social, fumaça ou o que for. Sua visão será super bem vinda. O comando do barco agora é de meu antigo companheiro de tantas jornadas, Luiz André Alvim. Meu primeiro amor, meu grande amigo, mais velho e fiel parceiro de trabalho: duas Companhias de teatro, umas 15 peças, uma série pra TV, algumas aulas na faculdade, umas 10 turnês, alguns festejos populares e várias lutas em comum. Amor eterno.

Assim que começamos a nos debruçar sobre os novos materiais da semana, e não tendo conseguido encontrar com o Bruno Levinson para debatermos, percebemos que mais do que acumular novos textos e depoimentos, deveríamos reorganizar e planejar novamente nosso percurso. Portanto, para a apresentação da Lapa decidimos fazer novas propostas de disposição do público no espaço e experimentar outras ordens do texto.

Como eu faria 8 apresentações para 4 pessoas de cada vez, com mais ou menos a mesma duração da semana anterior, resolvemos fazer um jogo de combinações de texto e espaço. Dessa forma criamos 4 diferentes disposições de cadeiras do público no espaço, e

modos diferentes de apresentar o texto. Nomeamos o texto original, o da experiência de Santa Teresa de parte 1 e o das apresentações do Horto de parte 2. Sendo assim criamos o “esquema tático” abaixo:

Apresentação 1

* Espaço- cadeira vermelha (eu) virada de frente para 4 cadeiras brancas (público) dispostas em semi arena.

* Texto- parte 1 + parte 2.

Apresentação 2

* Espaço- igual à apresentação 1.

* Texto- parte 1 até o fim do email + parte 2 + fim da parte 1 pós email.

Apresentação 3

* Espaço- cadeira vermelha (eu) virada de frente para outra cadeira vermelha (vazia), duas cadeiras brancas (público) do meu lado direito, viradas de frente para outras duas cadeiras brancas (público) do meu lado esquerdo. Todas as cadeiras estavam próximas.

* Texto- igual à apresentação 2.

Apresentação 4

* Espaço- igual à apresentação 3.

* Texto- música “Conselho” de Almir Guineto + parte 1 até email + parte 2 + final (saída falando o poema “Ausência” até entrar no banheiro e não voltei para falar com o público).

Apresentação 5

* Espaço- cadeira vermelha (eu) virada de frente para outra cadeira vermelha (vazia) um pouco mais distante, e quatro cadeiras brancas (público) viradas de costas entre elas. O que me obrigava a levantar e circular ao redor das cadeiras para ser vista e fazia com que o público tivesse que se virar nas cadeiras para me acompanhar com o olhar quando eu não estava na frente deles.

* Texto- música para receber o público + parte 1 até email (experimentando onde sentar, onde levantar, onde falar caminhando, circulando) + parte 2 ( com uma pessoa do público sentando na cadeira vermelha vazia) + “Ausência”circulando + música saindo.

Apresentação 6

* Espaço- igual à apresentação 5.

* Texto-Música até sentar, continuei cantando olhando nos olhos do público + Parte 2 + Parte 1 + música novamente até sair para o banheiro.

Apresentação 7

* Espaço-Disposição parecida com as apresentações 3 e 4, só que com mais espaço entre elas.

* Texto- Música + parte 2 até “não quero falar ainda” + parte 1 até email + parte 2 + final até “Ausência” + música toda cantada olhando nos olhos do público até o final, não saí.

Apresentação 8

* Espaço- Disposição parecida com as apresentações 5 e a 6, sendo que só tinham 3 pessoas de costas entre elas.

* Texto- igual à apresentação 7.

Observações:

Foi muito interessante experimentar essas combinações de espaço e texto, pois pude perceber como eu já estava cristalizada na forma de me relacionar com o público frente a frente. Todas as vezes que me apresentei foi nessa relação. Mesmo quando fiz para mais pessoas na viagem à São Paulo para a mostra na Vila Maria Zélia. A disposição semi-arena mantém essa relação frontal com a qual já estou acostumada tanto como atriz, quanto como espectadora. Quando dividi o público em dois lados fui obrigada a dividir também o texto. A presença de uma cadeira vazia, na minha frente, me obrigou a me relacionar com ela, com a ausência de uma pessoa e essa outra camada sutil de “presença da ausência” reforçou o sentido do texto que fala também de “presentificação”da ausência. Quando repeti essa mesma disposição só afastando mais as cadeiras, também me sugeriu uma sensação de solidão que eu ainda não havia experimentado, porque afinal em todas as formas anteriores o público estava mais próximo, o que criava um ambiente mais quente e íntimo.

O formato do público sentado de costas entre si, sem dúvida foi o mais desafiador, pois eu nunca havia experimentado fazer esse texto sem ser sentada. Ter que eleger aleatoriamente que parte fazer circulando, que parte fazer sentada em uma cadeira ou em outra, foi interessante para me mostrar como já tenho intimidade com esse texto e como movimento ou não também é entonação. Sem dúvida não era só eu quem estava em desconforto, pois o público era obrigado a se virar para me acompanhar com o olhar. Ainda não sei se isso é bom, mas sem dúvida a não acomodação cria uma inquietude que pode ser interessante para se relacionar com a atriz e com a obra de outra maneira. Afinal, o público também escolhe aleatoriamente o que quer ver e ouvir ou só ouvir. “Nós somos responsáveis por nossas escolhas”, como diz o texto certo momento. O fato de o público estar de costas entre eles, de forma circular, já determinava meu movimento no sentido horário ou anti horário. O que também trouxe outra forma de falar do tempo, personagem do texto em algumas passagens.

Em relação às diferentes formas de combinar o texto, o que mais me chamou atenção foi : primeiro, como eu tenho necessidade de mostrar para o público, que mesmo sabendo que está assistindo uma obra em processo, uma cena finalizada. Digo, eu me sentia mais confortável em fazer o formato de quando eu voltava para o texto final da parte 1. Porque nesse formato a cena terminava com um ponto final e não com reticências. As vezes que experimentei fazer a parte 1 e depois a parte 2, eu sempre queria dizer no final “É isso que temos até aqui”, como se fosse quase uma desculpa por não ter cara de fim e uma forma de pontuar que ali era um fim temporário…

A adição da música “Conselho” de Almir Guineto, foi um grande ganho para a cena, tanto pela letra e sincronia com o assunto da peça, quanto pelas experimentações de como colocá-la em cena. Essa é uma daquelas músicas populares que povoam nosso repertório da vida inteira sem que a gente preste muita atenção ao o que ela diz. É uma sensação parecida com o que vemos no carnaval, quando 2 milhões de pessoas cantam com os braços para cima e alegria momesca o samba “Vou Festejar”de Beth Carvalho, sem se dar conta da crueldade e amargura da letra, que nada tem a ver com a euforia do reinado da folia! Cantarolar “Conselho” de forma displicente recebendo o público ou cantar baixinho olhando nos olhos deles, foi muito diferente. Era claro perceber como eles captavam ou não o sentido da música. Também foi curioso experimentar cantar como se fala um texto, e de forma tão próxima do público. É quase o oposto de como a canção é apresentada nos musicais. Canção anti musical.

Experimentando formatos para encontrar um corpo. Algumas perguntas ainda nos povoam nesse caminho de descolar essa história de mim e de me aproximar das histórias dos outros, de histórias que são de todos. “Quem é essa mulher? Onde ela está? Porque ela diz isso para eles? Quem são eles?”

“Não estou dando nem vendendo, como o ditado diz”, mas meu conselho é que, por enquanto, você escute essa interpretação do mestre Almir!

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