Sessão 5 – Biblioteca Parque

Diário de Bordo

Georgiana Góes

Este último mês, foi dos meses mais movimentados da minha vida profissional em mais de 20 anos de carreira. Graças aos deuses!! Além de continuar essa viagem de pequenos e grandes gestos que desenvolvem este monólogo, comecei a gravar as segundas temporadas de dois programas que participei este ano: a série “Questão de família” do GNT , dirigida pelo Sergio Rezende e o humorístico da Globo “Tá no ar”, com direção de Maurício Farias. Dois programas muito bacanas e diferentes, que, junto a esta experiência de desenvolvimento do solo, estão me colocando em prática diária do exercício da minha profissão, fazendo me sentir como uma verdadeira atleta do ofício de atuar.Cada dia um canal de interpretação muito diferente um do outro, vidas em um dia, um dia de uma vida inteira, uma vida inteira em um dia…Texto, muito texto pra decorar. Haja musculatura! A sensação é de malhar o músculo da memória, visual, sonora, o sentido da cena, a cena. Muitas personagens têm passado por mim nesses dias, umas um dia, outras só alguns instantes e esta que vem da vida e levo pra vida. Isso tudo pra dizer que não dei conta de escrever a cada novo passo deste processo. Muito movimento e a escrita pede calma, quietude. Com essa papagaiada de personagens no meu juízo, só agora, um mês depois, me sento pra escrever. Então, as impressões já deixaram outras marcas não tão frescas. Mas foram as que ficaram e teceram este processo que no último mês a passos miúdos,veio se desenvolvendo.

Nossa nau agora ancora na Biblioteca Parque, que é um oásis no meio da Avenida Presidente Vargas, coração do centro do Rio. Um paraíso de livros, exposições, áreas de convivência, solar, café e um teatro! Um presente para o carioca que ainda não descobriu essa ilha fresca e recém reinaugurada no centro nervoso da cidade. Nossa babagem chega carregada por nossa equipe de mulheres, eu estou entre elas e carrego uma jardineira até a boca de terra. Essa é uma novidade desta apresentação. Em Santa Cruz, levei o vasinho que enterrava ou desenterrava objetos, agora temos uma jardineira maior, cheia de terra, só para enterrar objetos. A idéia ideia era fazer duas apresentações pra 20 pessoas cada, de preferência, que fossem pessoas que pensassem a questão dos gêneros: terapeutas, psicólogos, intelectuais, diretores. Conseguimos as 20 pessoas! Não eram todos especialistas no feminino ou no masculino, mas era um público bem interessante, interessado e heterogênio. Na segunda sessão ainda conseguimos um número quase exato entre homens e mulheres! A disposição da sala foi de duas filas de público, uma de frente para a outra e as cadeiras vermelhas nas cabeceiras, sendo uma delas com o movelzinho de um lado e o vaso de flores, a jardineira, os instrumentos de jardinagem e o regador, do outro. Então, nesta formação foi bem curioso “confrontar” os públicos na segunda sessão, colocando mulheres de um lado e homens do outro.

Nestas apresentações experimentei novos materiais elaborados nos ensaios com o Luiz André, que não estaria conosco desta vez. Outros ventos lhe levaram para a China, onde montaria a luz de “Descoberta das Américas” com o ator Júlio Adrião. Nos ensaios, Luiz André trouxe o mito do girassol. Fez sentido com as escolhas dessa personagem que não sou mais eu e depois de reescrevê-lo à nossa maneira, o mito se transformou em um novo prólogo. A canção “Deusa do amor” foi promovida à canção

de abertura e o breve texto que conta a história de uma ninfa que virou um girassol de tanto acompanhar o movimento do sol quando por ele foi abandonada, foi inserido como prólogo. Um texto que antes era lido por mim entre as leituras do público também foi promovido à texto inicial, e um texto que até a apresentação de Santa Cruz era lido por uma voz masculina do público, se transformou em uma gravação de voz “dele”. “Ele” virou mais personagem, agora “ele” não é só presentificado na ausência na cadeira vermelha, “ele” virou voz. Em Santa Cruz, percebemos que era muita responsabilidade dar para o público ler uma parte do texto pois entregávamos o ritmo da peça nas mãos dessa pessoa. Assim veio a ideia da gravação. Que é como um áudio de whatsapp e vem mesmo do som do meu celular, ampliando por uma das taças de vidro.

No andar de baixo da Biblioteca Parque há salas laboratório, para reuniões, trabalhos e estudos de grupo onde realizamos as apresentações. Me senti novamente atleta do ofício, só que dessa vez em teste, literalmente em laboratório. Apesar da sala ser muito estreita e fria, definitivamente luz florescente não acolhe teatro. Tudo fica verde e sem profundidade, detesto. O ambiente não contribuiu muito nestas sessões. Todo o tempo, me senti apertada com o público e muito clara, iluminada sem mistério. Em um certo momento da segunda sessão, dei um grito pra fora da sala, só pelo delírio em subverter por um único instante a ordem correta e silenciosa das bibliotecas. Desculpem os leitores mais concentrados, o teatro permite e é da minha natureza! Mesmo sem condições ideais de vôo, valeu o laboratório, experimentar novos textos, objetos e mídia. Interessante usar o telefone, elemento tão presente em todas as cenas do nosso dia a dia na cena de forma menos convencional, amplificada pela taça,que já pertence ao nosso hall de objetos cênicos. Como saí com uma sensação boa do experimento, senti mais falta ainda dos meus parceiros Luiz André e Bruno, que não pode estar presente por problemas pessoais. Mas Antonio estava presente com seu olhar sempre atento e fez o papel do Bruno de entrevistar as pessoas. Tive ótimos retornos do público, situação nova também pois, até então , por conta das repetições , eu ainda não tinha tido essa oportunidade de conversar com as pessoas diretamente. Uma pessoa me sugeriu o gesto de regar os objetos depois de enterrá-lo, outro criticou a forma como o ator gravou a voz ” dele”, outra pessoa deu ótimas contribuições sobre a cena, a presença, o presente.

Outra novidade que surgiu nesta apresentação, foi uma pergunta que veio de improviso logo no início depois de falar das flores e contar o mito tendo gérberas “no papel” de girassol: “Mas é teatro! É teatro? Vocês estão em um teatro? Será que tudo que eu falar aqui hoje é teatro?”. Gostei de colocar no texto esta passagem que representa o percurso metalingüístico que tenho vivido durante toda esta experiência. Me fez lembrar um texto do personagem Jaques de “As you like it”, ou “Como gostais”, em uma das versões em português da peça de Shakespeare que diz:

“O mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres não passam de meros atores. Eles entram e saem de cena e cada um no seu tempo representa diversos papéis.”

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