Sessão 4 – Santa Cruz

Diário de Bordo

Georgiana Góes

Manhã de sábado de sol, é primavera, nossa viagem será a mais longa até agora. Cruzaremos a cidade da boca da zona sul ao pé da zona oeste. Do Humaitá, chegada do túnel que desemboca na Lagoa à Santa Cruz, o último bairro da periferia oeste do Rio de Janeiro. Terra de origem do nosso comandante de base, Marcus Vinícius Faustini, foi nessas cruzadas que ele se fez. Eu nasci e sempre vivi num triângulo em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul da cidade. Mas, sempre gostei de olhar, visitar e viver realidades diferentes da minha de origem. Sou viajante curiosa pelo Brasil, gosto de entrar na casa das pessoas, papear, me ver vivendo ali. No Rio, apesar do dia a dia puxar para o comodismo da proximidade das redondezas, surpreendo os amigos de como conheço, caminhos e buracos da cidade. Já havia cruzado muitas vezes Santa Cruz em viagens pela Rio-Santos. Já me perdi algumas vezes sozinha. Uma outra vez, filmei num circo na região, numa outra, toquei com o grupo “Batucantá” numa escola, mas, sempre foi mais próximo à avenida Brasil. Nunca tinha entrado tanto no bairro. É um mundo gigante, rural e urbano ao mesmo tempo.

Desta vez, estávamos toda a equipe junta no mesmo barco, van filosofia, uma hora e pouco daqui para lá. Deu gostinho de turnê, papos no caminho, acertos como o diretor de que versão fazer primeiro, repasse em looping do textinho novo, olhar curioso pela janela pra conhecer e me situar. O público dessa sessão é composto de casais que estão juntos há mais de 10 anos e vamos nos apresentar numa igreja, Santa Veridiana, Santa Cruz. No mínimo simbólico. Percebo que este será o público mais diferente, será que vou conseguir chegar neles? Me comunicar? Será que vão querer conversar depois? Hoje não veio o Bruno e essa função ficou a cargo de António, nosso espião cúmplice testemunha, que acompanha o processo analisando nossos passos. Como a proposta é de fazermos quatro sessões para 10 pessoas cada, pensamos durante a semana numa nova estratégia de abordagem. Fizemos um questionário com 3 perguntas para que o público pudesse responder, otimizando o tempo da conversa e focando

mais no tema. Porque, percebemos nas sessões anteriores que, na medida em que o público foi aumentando, a conversa foi ficando mais dispersa, “terapêutica” e pouco eficiente para nossa proposta inicial que era de transformar em texto relatos do público. Percebemos que nem sempre conseguimos absorver elementos que vieram das conversas com o público, e que nem sempre elas são tão incríveis assim, mesmo o público sendo específico. Esta semana fiquei com uma sensação de que talvez a ideia do projeto seja mais interessante do que sua possibilidade de realização. Digo no que se refere ao objetivo inicial de ir aumentando a duração do espetáculo a partir dos textos criados oriundos dos depoimentos do público. Posteriormente, conversando com o Luiz André, ele me situou de que não necessariamente aumentamos a duração pelo texto, mas que sempre mudamos ou acrescentamos uma ação, uma canção, um contexto, um subtexto e que isso é crescer e desenvolver o espetáculo aos poucos. E me lembrou da bela oportunidade de criar desta forma imediata de mãos dadas com o público a cada passo. É a forma mais eficiente e rápida de ver o que funciona ou não. Como é bom ter um parceiro cúmplice na criação, ufa! Fiquei mais aliviada e desanuviada pra olhar para o caminho que segue à passos mais largos e a partir de agora com menos repetições.

Chegamos a uma ruazinha sem asfalto e quem vem nos receber é o senhor Alair, que me pareceu ser o guardião do espaço Veridiana. Muito simpático, me contou da origem do nome do espaço, que era uma homenagem à Santa que nomeia a rua e que era cultuada pelos italianos que chegaram à Santa Cruz , no início do século passado, para trabalharem na lavoura, se não me engano. Me disse que aquele era um espaço da comunidade, não exatamente uma igreja, apesar de se guiarem pelos fundamentos da igreja católica romana. Que ali é um espaço de celebração onde são realizados casamentos, batizados, festejos, encontros, orações e me parece que, pela primeira vez, teatro! Que honra! Com a bênção de Santa Veridiana e da Santa Cruz, me vi, sem querer, refazendo um caminho de história do teatro. Em um espaço sagrado e ou “profano”, um ato de celebração de vida e morte, encenação dentro da igreja que por necessidade e impossibilidade

aos poucos sai da igreja e termina em uma sala de espetáculo! Santa pretensão, desculpem.

Mais uma vez veio o gostinho de turnê, de ter que se adaptar a espaços e condições muito diferentes. Ali tudo era simples, calmo e bucólico. Um gramado verde ao lado me piscava, um beija-flor, veio me saudar, recebi o beijo, obrigada. Problemas com o público. As pessoas que haviam confirmado não apareceram e tivemos que diminuir as sessões para 3. Na primeira fiz para 8, contando com Antonio e o Luiz André que pedi para assistirem junto ao público para aumentar o quorum. A formação foi a mais tradicional: semi arena. Cadeira vermelha com o movelzinho vermelho de um lado com a taça, jarro com flores do outro e agora novos elementos deste lado: um outro vaso com terra e uma plantinha moribunda, uma latinha com pequenos instrumentos de jardinagem e um regador, tudo verde. Na última semana no encontro com Bruno e Luiz André surgiu essa imagem de um jardim. Talvez ali seja um jardim, talvez ela seja um mulher que cuida de um jardim. Outra ideia nova foi a de receber o público com a música “Deusa do Amor” do Olodum, só que na versão lenta e romântica de Moreno Veloso em seu primeiro disco, “ Máquina de escrever música”. Essa foi uma canção citada como tema de um casal na sessão do Horto. Eles se encontraram em um carnaval em Salvador e seguem juntos há 14 anos. A música conta “foi no bloco Olodum que encontrei meu amor”. Achamos que essa poderia ser uma maneira de sugerir um pouco da história anterior desse casal cuja história contamos na peça e que começar doce e leve ou levemente melancólica poderia ser um estado interessante para essa mulher que cuida de plantas. A outra cadeira vermelha foi incorporada a semi arena na frente da outra cadeira vermelha onde me sento. Ela permanece vazia. A presença da ausência. Nessa primeira sessão um casal à direita não me parecia muito interessado e é muito ruim sentir esse abismo entre nós, tão próximos. Olhei, sorri, joguei textos, fiz umas graças e nada, a moça me parecia ter sono…”Oh minha santa cruz, me ajude!”, gritava eu para dentro, achando que pelo menos assim ela poderia me ouvir. O do lado estava muito atento e a moça acenava com a cabeça como que concordando com tudo que eu falava. “Obrigada, Santa Veridiana!”. Do lado esquerdo da cadeira

vermelha duas moças atentas, mas seriam um casal?” me perguntei durante os 30 minutos. Afinal, em tempos de Feliciano uma casal de moças não tão moças dentro de uma igreja não tão igreja assistindo à uma peça? Depois soube que não eram, que pena! Eram irmãs. Os outros eram seu José nosso motorista, António e Luiz André. No jogo de ordem dos textos pedi para o homem do casal atento ler o texto da voz do homem da peça, ele disse que estava sem óculos, pedi pro homem do casal desatento, ele disse o mesmo. Minha leitura foi de que ficaram com vergonha ou que não sabem ler com firmeza e por isso ficaram com vergonha. Pedi para seu José que leu numa velocidade que todos dormiriam no primeiro parágrafo. “Ái minha Santa Cruz!”. Rapidamente pedi para que o António lesse uma parte e Luiz André outra, assim dissolvi uma pouco a situação constrangedora e o barco seguiu. Definitivamente essa formação semi arena já não me desafia, fico congelada nas ações e na relação com o texto. Mas foi bom para aquecer e experimentar o novo trecho enxertado após a leitura do cartão que o “ele”da peça escreve para “ela”.

Na segunda sessão o público estava disponibilizado em duas filas, uma de frente para a outra e uma cadeira vermelha em cada “cabiceira”, sendo a minha com os elementos dos lados. “Deusa do amor” ficou como música de recepção do público e experimentei desenterrar o texto dado a um dos homens do público, como se fosse uma carta dentro de um envelope. A ação funcionou, o público reagiu com surpresa. “Obrigada, Santa Veridiana!”. O colar também saiu desenterrado. Mas achei meio forçado, ok. Contudo gostei da imagem de uma jardineira que enterra ou desenterra objetos, histórias, suas e dos outros para ver o que nasce… A relação com o público fica bem estabelecida nessa disposição. Estão espelhados e por isso algo já acontece entre eles, o ideal seria colocar homens de um lado e mulheres do outro e de preferência que os casais pudessem se olhar frente a frente. Infelizmente não conseguimos que todos fossem casais, nem a quantidade exata de homens e mulheres. Mas nessa sessão tinha 12 espectadores que me pareciam bem interessados. Duas senhoras que riam muito e se entreolhavam a cada momento que eu contava alguma intimidade, uma delas logo no início tirou uma

foto com flash, no final pediu uma foto comigo, aceitei, claro. Quando escolhi um homem para ler a voz do homem da peça, pedi a um senhor que começou a ler lindamente com uma voz antiga dessas de história, com érres e esses bem marcados e um leve sotaque que eu podia jurar que ele era um padre a paisana. “Um padre a paisana numa igreja?”, pensei. Depois soube que ele não era padre e é argentino. Foi engraçado ouvir aquela voz falando às vezes de sexo ou lendo um “foda-se” que tem no texto. Ali tudo deu uma desafinada rápida, o mundo ficou ao contrário e eu fiquei um pouco envergonhada de profanar o espaço sagrado. “Ái minha Santa Cruz, perdão, mas é da minha natureza!”. Em alguns momentos por pudor, ou por um respeito cultural que nem sei porque me bateu, mudei uma palavra ou outra do texto, passei mais rápido pelos momentos de sexo, tentei brincar com eles para quebrar um possível desconforto. Deu certo, eles estavam comigo! “Santa Veridiana, obrigada!”. Por sugestão do Luiz André, invadi o gramado verde que me piscou logo na chegada no momento em que eu lia o email e estavam todos de olhos fechados. Incrível sensação de liberdade que eu nunca tinha sentido, falando esse texto. Minha voz se espalhava no ar, ia para o céu, para as árvores, para as nuvens e eu como louca gritava com ninguém do lado de fora. Luiz André disse que foi um momento forte pois parecia que “ele” estava lá fora. A caminhada circular que surgiu enquanto o “não padre argentino” lia o texto inicial também foi incorporado, ela já havia surgido na Lapa quando as cadeiras estavam dispostas de costas umas para as outras, me forçando à mover-me ao redor da audiência . Na Lapa o tempo estava representado nesse movimento horário, ali também, mesmo as cadeiras estando em duas fileiras frontais. A música “Conselho” parmaneceu como canção do final.

Na terceira apresentação, resolvemos espalhar as cadeiras pelo espaço de forma mais bagunçada, mas meu “set” cadeira vermelha, movelzinho, vaso, flores e regador, permaneceram no mesmo lugar e a outra cadeira vermelha permaneceu vazia de frente, mesmo que distante, para sua semelhante. Nessa sessão foram apenas 7espectadores, mas foi interessante deixar algumas cadeiras vazias. O público não me parecia nada habitual às salas de espetáculos e nós não estávamos em uma sala de teatro! Mas

percebi que teria que “captá-los” de outra forma. Eles eram mais dispersos, um pouco constrangidos com aquela proximidade toda, como o olho no olho que essa experiência convida. As cadeiras espalhadas me forçavam a ficar menos sentada e a circular por eles, o que já fazia com que eles ficassem um pouco mais atentos, pois tinham que se mover um pouco pra me verem. No momento do email mantive a corrida solta para o gramado, “quando terei novamente essa oportunidade? Obrigada, Santa Veridiana! “

Com estas apresentações, fiquei pensando numa relação que tenho refletido desde as apresentações embrião desse solo lá no apartamento em Laranjeiras durante o Festival Home Theatre. Como muitas vezes pela proximidade e intimidade com o público e pela “realidade” dos fatos ou da forma de contá-los, ás vezes me sinto como se eu estivesse falando para a câmera. Os movimentos tem que ser pequenos, as palavras tem que ser naturais, verdadeiras e, ás vezes, quando me movimento, é como se estivesse cortando o quadro. Pode ser mais fechado, pode ser mais aberto. Mas ali naquela relação original de um para um, o plano nunca passava além do plano médio, ou americano, como diziam os cineastas dos wersterns. Aos poucos, como o público vai dilatando, essa sensação vai se transformando. Vou “abrindo” cada vez mais a “câmera”, os movimentos vão ficando maiores, tenho que alcançar um número maior de pessoas. Não necessariamente os movimentos têm que ser grandes, mas mais dilatados em energia para “tocar” mais espectadores. Percebo também como brincar com esse limite entre estabelecer um jogo aberto ou fechado com o público. Quando comentar alguma coisa que está acontecendo no momento, como dizer “saúde” para alguém que espirra ou dizer “pode entrar” para alguém que bisbilhoteia a cena.

Neste quarto passo desta jornada, percebo que alguns pilares do projeto estão se consolidando e fico feliz com essa realização. Acho que estamos estimulando o interesse do público pelo teatro a partir de novas relações como a proximidade e cumplicidade que vai se estabelecendo entre os espectadores e eu, a experiência do ato teatral no ambiente doméstico ou em locais que normalmente

não recebem teatro e como essa vivência rompe com a dinâmica cotidiana dos locais. Em Santa Cruz isso tudo aconteceu!

Próxima parada: Centro para 20! Até lá!

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