Sessão 6 – Del Castilho

Diário de Bordo

Georgiana Góes

Del Castilho, 30 de outubro de 2014.

Nossa van filosofia chegou ainda de manhã para buscar toda a equipe e nosso nano cenário para cruzarmos mais uma vez a cidade de uma mão à outra do Cristo Redentor. Saímos da zona Sul rumo à Meca do consumo da classe média da zona Norte, o Norteshopping. Inicialmente, nos apresentaríamos em outra região da zona Norte, em um dos espaços culturais do Complexo da Maré, um conglomerado de comunidades que está sofrendo uma batalha entre os traficantes que disputam os pontos de venda de drogas na área. Por questões de segurança, tivemos que cancelar as apresentações por indicação dos próprios moradores. Como Luiz André Alvim é integrante da Cia Atores de Laura sediada no Teatro Miguel Falabella no Norteshopping, transferimos as apresentações para uma pequena sala de ensaios e de espetáculos no segundo andar do teatro.

Eu também fui integrante da Cia Atores de Laura nos primeiros 10 anos dos seus 20 anos de existência, apresentei algumas peças no Teatro Miguel Falabella e foi como uma viagem no tempo voltar à aquele espaço, à aquelas coxias, à aqueles camarins. Como apresentamos na sala de cima, o percurso da van até o local de apresentação parecia uma passagem de “Alice no país das maravilhas”. Já que estávamos com cenário. entramos por uma porta diferente da dos consumidores do shopping, o que já nos diferenciava dos demais e nos ejetava de forma mais abrupta no paraíso do consumo. Luzes, gente, barulho, cheiros, letras iluminadas, ofertas, muitas ofertas. Não reconheci quase nada do shopping, pois em mais de 10 anos ele se multiplicou algumas vezes como num jogo de espelhos. Entramos no teatro, no hall não há mais fotos da Cia Atores de Laura , não me vi mais ali como antes, outra sensação de não reconhecimento. Subimos em direção à salinha, escadas, hall de cima, lembrei, apesar das reformas. No caminho até a sala, um corredor apertado, outras escadas e uma portinha que é necessário se abaixar bem para não bater a cabeça. Cuidado! De repente tudo ficou escuro, precisamos descer mais alguns degraus, seguimos por uma passarelinha na qual podíamos avistar toda a grande sala de espetáculos lá em baixo, tão lá em baixo que tudo parecia miniatura e nós gigantes. Cuidado! Outros degraus e novamente era necessário se abaixar para não bater a cabeça. Chegamos! Uma salinha linda, toda reformada, ar condicionado no talo, tudo preto, neutro e dá pra ter iluminação cênica. Me senti num “quase” teatro. É teatro, mas não é. Tal qual meu texto, que é e não é teatro. Recepção de estrela! Um camarim só pra mim, biscoitos, suco, café, barrinhas, um mimo de presente e uma cartinha da Cia e da equipe do teatro me dando boas vindas. Me emocionei. Que legal ser parte dessa história e voltar por outros rumos pra contar uma nova história. Obrigada, amores de Laura!

Nosso público específico era de jovens casais que, de preferência, estivessem juntos há poucos meses. Primeiro, nos desesperamos pois quase não havia ninguém para assistir. Hora difícil para jovens que estão estudando ou trabalhando no início da tarde. As super heroínas produtoras foram à caça de público pelo shopping, escolas,

cursos e tivemos que atrasar as sessões. Infelizmente, perdemos a participação de António que precisava sair logo após a primeira sessão, pois tinha outro compromisso. Ok, almoçamos juntos, aproveitando o atraso, e conversamos sobre o processo, já que só nos encontramos nos dias de peça e ele, como testemunha ocular, sempre tem ótimos comentários e ideias para acrescentar. De repente, a Pati aparece arregalada, dizendo que havia conseguido uma turma de 30 alunos que estavam saindo mais cedo de uma aula para nos assistir. Saí correndo do restaurante, cruzei com os alunos na escada que já estavam querendo desistir e conseguimos segurar uns 25. Ótimo! Essa era a nossa meta de público para o dia.

O espaço já estava arrumado para recebê-los em duas fileiras como havíamos feito na Biblioteca Parque e, assim como lá, também espalhei pétalas de flores por um corredor entre as duas cadeiras vermelhas, dando uma pitada de que ali outros bem-me-quer-mal-me-quer já haviam sido vividos. Consegui organizá-los como na Biblioteca em uma fileira de moças e outra de rapazes. Eles eram jovens, muito jovens e logo no início percebi que seria um novo desafio. Pela idade, não deveriam ainda ter vivido um grande amor, ou provavelmente ainda não deveriam ter vivido a morte de uma grande amor…Como me comunicar com eles? Riam um do outro, tinham vergonha e ficavam nervosos com determinados assuntos, riam novamente em lugares aleatórios e cochichavam entre si. O exercício de seduzir a atenção deles foi o de olhar diretamente nos olhos de quem estava mais disperso, às vezes perguntar alguma coisa fora do texto para chamar o foco para a ação paralela dele ou dela, de outra vez tocar de leve o ombro para que de forma amigável eu pudesse convencê-lo de que aquela podia ser uma boa história para se aquietar e escutar. Uma moça não saía do celular e eu fiz uma parte toda do texto olhando só pra ela. Deu certo, ela sentiu, sorriu e guardou o telefone. Mas aos poucos, fui conseguindo captar a atenção de todos e tive a impressão de que estavam presentes e embarcados na viagem junto comigo. Que bom! Mais um teste de que mesmo parecendo difícil e às vezes impossível esse texto tem a capacidade de comunicar com públicos bastante diferentes. Pois quem ainda não viveu com certeza quer e vai viver um amor, correspondido ou não, compartilhado ou não, feliz ou não e inevitavelmente vai sofrer quando acabar. É da vida e é do amor, viver e morrer.

No fim da sessão, pela primeira vez me apresentei, falei do processo e puxei a conversa com eles junto com o André, já que o António não estava e Bruno não apareceu… Alguns também responderam ao questionário e o papo foi bem afetivo e franco. Eu e André contamos que fomos namorados e vivemos juntos um primeiro amor, que somos parceiros há muitos anos e que nosso sentimento foi transformado em natureza, mas que não deixa de ser amor. Foi legal ver como eles absorveram e gostaram também da nossa história.

Na segunda sessão, as produtoras conseguiram mais alguns alunos e estudantes dos cursos do Teatro Miguel Falabella e novamente atingimos nossa meta de público. Aproveitando o número de pessoas resolvemos experimentar espalhar as cadeiras onde o público se sentaria para que eu pudesse experimentar uma nova dinâmica de movimentação. As duas cadeiras vermelhas continuaram viradas uma de frente para a outra, o tapete de pétalas entre elas, o móvel com as duas taças e o

telefone de um lado, jardineira, regador, vaso e flores do outro. Boa sensação de ter que me jogar para captar a atenção do público de diferentes formas em movimento. No ensaio anterior a essas apresentações, o André tinha sugerido exatamente que eu buscasse ao máximo a atenção do público para que se estabelecesse um diálogo, mesmo só eu falando, para que o texto não ficasse só narrativo e distanciado de quem ouve. E sugeriu que eu buscasse o olhar deles em pequenas quebras, quase como comentários do que eu estava dizendo. Como se eu quisesse dizer nas entre linhas “sabe? Concorda? Já viveu isso? Olha só como foi! Vou te contar um segredo”, então essa foi a grande diferença da Biblioteca pra cá. Outra diferença incorporada foi que um rapaz contou uma história bem curiosa após a primeira sessão, que começava a partir de uma contra capa de um livro que ele viu numa livraria dessas grandes de shopping. E acabei acrescentando esse texto como se eu tivesse lido sobre o mito do girassol na contra capa de um livro de uma vitrine dessas livrarias grandes de Shopping. Também por sugestão do André, quando eu comento no texto sobre 2 namorados que tive antes do “ele” abordado na peça, o diretor me deu a ideia de sentar no colo de um homem da platéia como uma brincadeira de que aquele poderia ser um dos meus ex.O tom das duas sessões foi mais confessional, mais aberto para comentários paralelos sobre o que às vezes acontecia na hora, quase como uma conversa, como se eu estivesse falando para eles que eles podiam ficar à vontade, que estávamos próximos e todos no mesmo barco. Foi interessante experimentar essa textura e esgarçá-la ao máximo. Funcionou para esse público mas precisei ir a este extremo para perceber que não é este o registro que eu mais gosto para toda a encenação. Mas valeu pelo exercício de estar atenta a tudo que acontece durante o momento da representação e poder até comentar. Prática do momento presente!

Saí da segunda apresentação e não pude conversar com o público porque fui correndo para o Projac gravar dois quadros para a segunda temporada do humorístico “Tá no ar”. Lá fui eu novamente cruzar a cidade, só que desta vez da zona Norte à zona Oeste entre trânsitos e obras intermináveis de um mês eleitoral. Deu tudo certo e chegando lá, mudei de canal para encarnar a apresentadora de “Papo Chato”. No dia seguinte, batente cedo pra cenas mais importantes da minha personagem na série “Questão de família”. Que privilégio conseguir exercer a profissão que escolhi há 23 anos! Que felicidade essa realização! Ô sorte! Ora Iê Iê ô! Evoé!