Sessão 7 – Nós do Morro

Diário de Bordo

Georgiana Góes

Morro do Vidigal, 2 de novembro de 2014.

Domingo de sol escaldante, praia lotada, todas as cores de uma primavera- verão carioca estourando e derretendo as idéias. Subi o morro com o meu carro e tive certeza: a peça cabe no meu carro! Ouviram? (gritando) A peça cabe no meu carro, na mala do meu carro!! Ou seja, dá para viajar até onde o mundo couber, pois 4 pessoas viajam confortavelmente neste carro de passeio e ainda dá para dar uma caroninha para mais alguém daqui até ali. Produtor, diretor/iluminador, um motorista/contra-regra e a atriz, no caso, eu! Espero rodar muito ainda com este invento em carros de passeio, vans filosofias, ônibus, aviões e porque não, barcos! Ouviram, Deuses? Ouviram?

Normalmente chove no dia de finados. Neste domingo o sol brilhava protagonista no céu, não tinha uma nuvem pra contar lorota, gostei da antítese que a vida trouxe nesse dia: morte e vida. Que nem a minha história, morte que deu vida, vida que refletiu em teatro e mais vida. Mais uma piscada do divino para abençoar esse trabalho, afinal era o meu dia oficial de chegada com essa peça em um teatro de verdade! O Nós do Morro é um grupo muito especial que foi fundado em 1986, com o objetivo de criar acesso à arte e à cultura para todas as faixas etárias da counidade do Morro do Vidigal. Hoje, o projeto se consolidou e oferece cursos de formação nas áreas de teatro (atores e técnicos) e cinema (roteiristas, diretores e técnicos), abrindo e ampliando os horizontes para um sem-número de crianças, jovens e adultos moradores, ou não, do Vidigal. Hoje o projeto acontece em outras regiões do Rio e só no Vidigal eles têm dois espaços. Eu apresentei no teatrinho mais de cima do morro e pela primeira vez, vi o nome da peça estampado em uma parede anunciando as duas apresentações do dia. Deu gostinho de temporada…

Entre a última apresentação e esta, tive poucos ensaios e muitas filmagens e gravações. Me encontrei uma ou duas vezes com meu diretor, Luiz André Alvim, mas o Bruno Levinson, nosso colaborador dramatúrgico deu uma sumida por problemas pessoais, o que atrapalhou um pouco os planos de desenvolvimento de texto das últimas apresentações. Um dos vários desafios desse projeto, e que no fim das contas acho que ajudou mais do que atrapalhou porque soubemos jogar com as condições, foi justamente aceitar o que tínhamos para que pudéssemos ir adiante. E este foi um ótimo exercício de objetividade. Ao invés de perder tempo tentando entender porque determinadas coisas não saíram como planejado, víamos o que podíamos criar com as condições que tínhamos. Então o que em um processo de criação normal às vezes leva muito tempo para ser decidido, nesse projeto, as decisões eram mais rápidas, arriscadas, imediatamente colocadas à prova com o público e eleitas ou não para seguirem na composição. Para mim este é um exercício duas vezes mais difícil, pois além de ser geminiana, o que faz com que todas as possibilidades sejam possíveis quase tornando impossível uma decisão rápida sobre qualquer coisa, venho de uma história de mais de 20 anos de teatro de grupo. Dois coletivos que costumam criar de forma colaborativa,

ou seja, a decisão por uma música ou outra, um copo ou uma taça, se começa a peça como termina ou se termina como começa, pode durar mais de um mês de debates inflamados. No fim temos que chegar a um consenso ou o que vale é a palavra final de quem assina a direção. Aqui a necessidade de criação rápida faz a peça. E se não ficar tão bom, ainda posso experimentar diferente na próxima sessão e na próxima, e na próxima.

O espaço não comportava bem a disposição que temos escolhido fazer, a de manter as cadeiras vermelhas uma de frente para outra com um espaço de uns quatro passos entre elas e as outras cadeiras do público espalhadas pelo entorno de forma menos simétrica. Ficou um pouco apertado e tivemos que improvisar umas cadeiras. Se tivéssemos o público planejado de 30 espectadores, provavelmente não daria. Dia de sol domingo 19h, claro que não apareceram os 30, acho que só a metade. Pra mim não foi o ideal, pois o meu desafio a partir de agora seria justamente o de experimentar com um público maior e cada vez maior. Fiquei um pouco frustrada, tive a metade mais ou menos do público planejado nas duas funções. Mas na primeira tive convidados ilustres, meus pais!

Foi bem especial fazer para eles, porque eles acompanham de perto o processo dessa peça há tempos. Quando fiz para um de cada vez ano passado, não tive coragem de fazer para eles. A história real que conto na peça ainda era muito recente e por mais que nossa relação seja muito linda, cúmplice e de grande respeito e intimidade, eles são meus pais! E algumas coisas são mais delicadas de dizer, de contar. Lá atrás tudo já era só desafio, contar, reviver, vasculhar as memórias, fazer para um, trocar com esse um. Ali não tive coragem de fazer para eles. Mas agora a peça não é só a minha história, meu pai, como super herói professor de literatura, revisou todos os meus diários e minha mãe acompanhou de perto meu processo de separação, de superação e de novo apaixonamento. Ou seja, eles já faziam parte dessa história e agora estava na hora de contar pra eles. Me emocionei muitas vezes com o olhar aguado da minha mãe e o olhar mais distante e um pouco constrangido do meu pai, apesar de orgulhoso e também emocionado. Só amor e gratidão da relação linda e especial que temos. Eles são meu chão, minha terra prima, meu impulso maior pra qualquer vôo. Levo eles pra onde vou pra sempre! Obrigada, meus amores!

O calor me alucinou um pouco, mas o barulho do ar condicionado me enlouqueceu mais e tive que desligar. Coisas do presente que me fazem viva em cena ao ter que negociar com o público, abrir aspas no texto e seguir da onde havia parado. Volta o sentido de performance e gosto desses momentos presentes.. O Luiz André fez um pequeno desenho de luz e a atmosfera do teatro já voltava. Digo voltava, pois no Norteshopping, na salinha de ensaio, ele já havia montado uns refletores pequenos para a cena. Incrível como luz é dramaturgia, ritmo, ambiente. Muito da magia da cena mora na luz.

Nesta sessão experimentamos colocar uma frase em cada flor doada ao público no final, como se fosse um biscoito da sorte. Eu e Luiz André selecionamos frases do

público que assistiu a sessões anteriores e outras frases de textos do Bruno Levinson que não viraram texto, mas que gostamos e outras frases que achamos que dialogam com a peça, mas não encontramos espaço para encaixá-las. Fez sucesso! As pessoas gostaram do mimo. Pensamos que essa poderia ser uma forma de resolver a questão de presentear o público com flores todas as sessões. Isso encarece muito a produção se pensarmos que faremos temporadas e que o número de espectadores pode chegar a 100 pessoas. Tivemos a ideia de colocar essas frases em um papel semente e distribuir para o público. O papel semente enterrado em um vaso com terra e regado vira uma flor. Acho interessante estimular as pessoas a plantarem uma flor. Imprimir essas frases e enrolar nas flores foi uma semente para essa ideia. Prefiro a imagem das pessoas saindo dos teatros com flores na mão para presentearem outras pessoas ou a si próprios, mas vi que as frases funcionam como brinde e já temos essa carta na manga para futuras condições de produção. Se é para experimentar, aproveitemos a oportunidade em vários aspectos!

A segunda sessão foi mais difícil, eu estava pouco estimulada para fazer para poucas pessoas, o Bruno que havia aparecido não me parecia mais entusiasmado com o projeto, eu senti que havíamos perdido uma conexão que foi bem natural durante os encontros que fizemos e me pareceu que ele foi um pouco para cumprir o compromisso. Pode ter sido uma sensação só, mas qualquer sentimento já é alimento ou impulso pra essa peça fronteiriça. Gostei de ver um pessoal do Nós do Morro lá, me senti mais acolhida e dentro de um dos outros objetivos do projeto em criar pontes, trocas, vínculos com o público e profissionais da área. Uma grande amiga também subiu o morro pra me assistir e fiquei lisonjeada dela ter ido. Gostaria de ter mostrado essa peça em processo para mais amigos próximos, para mais parceiros de cena, para mais pessoas que acompanham minha trajetória pessoal e profissional. Mas, mais uma vez, vamos com o que temos! Sei que a vida é corrida, os locais das minhas apresentações não eram muito cômodos para a maioria dos meus amigos que moram na zona sul e que os horários também não facilitavam a audiência. Foi proposital circular, não apresentar em horários nobres, experimentar públicos e formatos distintos. Sempre quis manter a cara de experimento, de processo, de laboratório, de investigação nesse projeto. E acho que não é todo mundo que se interessa por meio, o público, mesmo os amigos, querem ver o resultado final. Ok, espero poder mostrar em breve em um teatro perto de você! Ouviram Deuses?! Ouviram?

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